ônibus lotado.
cena 1: moça sai do ônibus na avenida paulista. quem está dentro do ônibus não pode ver seu rosto desesperado. homem alto esbarra na moça e sai correndo. a moça agarra um outro homem que sai do ônibus ao seu lado pela camisa e começa a berrar frases inteligíveis. todos no ônibus olham.
moça: meu celular, CADE MEU CELULAR?
é possível ouvir o desespero.
homem: que celular, senhora?
um aparente motoboy (segurando um capacete) tenta apartar e entender o que houve. a moça se mostra mais desesperada.
moça: MOÇO, ELE PEGOU MEU CELULAR, MOÇO. CADÊ A POLÍCIA? POLÍCIA, POLÍCIA!!
homem: QUE CELULAR, SENHORA? NÃO TEM NENHUM CELULAR AQUI! QUER QUE EU ABRA A BOLSA?
moça: quero.
homem: NÃO TEM NADA AQUI!
não havia nada.
moça no ônibus (para a outra ao seu lado): o homem saiu correndo..
cena 2: uma garota que estava lendo seu livro deixou de ler. ler no ônibus não funcionava para ela. ela se perdia na música, nas pessoas, na avenida… mas aí ela deixou de ler. pensava “a mediocridade do ser humano é terrível. é um celular. foi um furto. você está viva, e tão desesperada por um objeto. um consumo.”
e ficou assim por minutos. perdendo as esperanças. o ônibus não esvaziava. passou por mais um, dois terminais e só enchia.
cena 3: encharcada de suor, a garota do livro chegou ao seu destino. ela não confiava nos homens da rua. olhava-os com desprezo e desconfiança, esperando que a olhassem como um objeto para poder confirmar seu repúdio. por isso sempre parecia mal-humorada.
garota do livro vira algumas esquinas e bate três vezes na porta do destino final. garoto atende. está tocando guitarra.
ainda pensando nos problemas da humanidade, a garota do livro se senta e observa o garoto da guitarra. ele está tocando um dos álbuns que ambos gostam. ela percebe mais uma vez que o ama.
a música termina e, com relutância, o garoto desempunha a guitarra, dividido. senta-se ao lado da garota e a beija.
ele a ama e ela o ama. trocam algumas palavras e sorriem. sentem-se confortáveis. sentem-se sãos e completos com o abraço, apesar do calor das ações misturado com o sol forte daquele dia.
a garota ainda não parou de pensar no ser humano. “como aquele ser, de tantas dualidades ainda não se destruiu?”, pensa. ainda há coisas boas a vir. talvez a moça que teve seu celular furtado tenha se arrependido e pedido desculpas ao moço acusado injustamente. talvez tenha sido só sangue quente. talvez ela já tenha comprado outro celular. não há como saber.
“talvez não seja tudo tão medíocre assim…”
Isso não é feminismo. Isso é usar um argumento bobinho e generalizado sobre relacionamentos - que também pode ser usado contra você.
Feminismo é outra coisa.
“Eu sei, eu sei, escrever-te (me) aqui não faria sentido já que foi a mamãe quem te (me) deu este livro, mas acho que não poderia ser diferente.
Sempre achei que foi uma sorte - ou um azar desgraçado - que Machado de Assis e Nelson Rodrigues não tenham conhecido a família louca que são os Pereira Nunes. Eles se esbaldariam! Com tantos amores, traições, invejas, admirações… Com os filhos bastardos, os pais refugiados, as loucuras (às vezes) diagnosticadas, as guerras enfrentadas e todos os agregados. Uma família que teve tanto tempo de glória e que, agora, a cada ano que passa fica mais e mais decadente. As quatro esbeltas irmãs, as mais belas do Rio de Janeiro, agora gordas, sem dentes, carecas, alcoolatras, se não já mortas. A mãe/ avó/ bisavó que se perdeu em tempos remotos e viu as filhas, frutos de seu próprio ventre, enlouquecerem e/ ou morrerem. Adão, o primeiro da estirpe, mumificado em lendas e adorações que preenchem o pai e avô que nunca foi. Os netos separados por antigos e estúpidos rancores os quais eles juram que ainda fazem sentido. Os bisnetos privados das histórias completas da família que mal conhecem. Uma família cuja história é tão complexa e fantástica que mudo de opinião: qualquer escritor se esbaldaria se soubesse de sua existência.
Mas a verdade é que García Márquez fez o que acreditei ser impossível. Pois não foi preciso conhecer os Pereira Nunes para escrever sobre eles. Os Buendía dão conta. Cada um perdido em seu próprio tempo e espaço, iludido e desiludido com verdades duras, quase impenetráveis. Todos - Buendía e Pereira Nunes - condenados a cem anos de solidão.
Assim, dedico este livro, que me foi dado por minha mãe, não apenas a mim, mas a todos que, como eu, têm esta aterrorizante família e que, mesmo sem sobrenome, tem no sangue a marca seja dos Pereira Nunes, dos Buendía ou ambos: Manuel Camillo, Pilar, Thales, Otto, Maria Eduarda, Joana, Santiago, Paula, Carla, Manoela, Mariana. Alice, Abigail, Tonico, Juliana, Renato, Liana. Bebeto também E Marquinhos, Pedro, Marcelo e Rodrigo. Sônia, Ana Rosa, Alaíde. Que não se esqueçam (e me incluo aqui) desta história nossa que não é uma, mas mil. E que, em algum canto ou momento, se livrem de todos esses anos de solidão, pois tenho certeza de que esta é nossa segunda chance.
Clara
(verão de 2013, São Francisco do Sul, SC/ São Paulo, SP)”
>Cem anos de solidão. Gabriel García Márquez
>Enviada por Clara (coleção particular)
>No fim do ano passado, ganhei de minha mãe “Cem anos de solidão”. Comecei a ler, mas por causa de viagens e festas e pessoas chegando e indo embora, só consegui o ler realmente em meados de janeiro. A cada capítulo, página, frase, palavra, eu lembrava mais e mais de minha família - que tem uma história quase tão louca quanto à do livro. Era como se García Márquez contasse a minha história. De meus bisavós, avós, tios, primos etc. Uma família com tanto, que acabou se desfazendo em ventanias de solidão.
Quando terminei o último capítulo, estava tão extasiada, entusiasmada e, ao mesmo tempo, tão triste e nostálgica que precisei escrever a mim mesma - e também a meus parentes - o que estava sentindo. Precisava transformar o sentimento em pensamento para poder me fazer sentido. Então, escrevi essa dedicatória. E a cada momento penso em outras pessoas da família - que parece que não acaba mais de tão grande que é - e tenho vontade de fazer um asterisco e colocar o nome deles. Pedrinho, Ísis, a outra Abigail… É tanta gente! Mal dá para acreditar que estão todos, assim como os Buendía, perdidos em tantos anos de solidão.